sexta-feira, 23 de novembro de 2018

Capítulos XXXII e XXXIII




XXXII

Descamba o Sol.

Japi sai do mato e corre para a porta da cabana.

Iracema, sentada com o filho no colo, banha-se nos raios do Sol e sente o frio arrepiar-lhe o corpo. Vendo o animal, fielmensageiro do esposo, a esperança reanimou seu coração; quis erguer-se para ir ao encontro de seu guerreiro senhor, mas os membros débeis se recusaram à sua vontade.

Caiu desfalecida contra o esteio. Japi lambia-lhe a mão desfalecida e pulava travesso para fazer sorrir a criança, soltando uns doces latidos de prazer. Por vezes, afastava-se para correr até a orla da mata, e latir chamando o senhor; logo, tornava à cabana para festejar a mãe e o filho.

Por esse tempo pisava Martim os campos amarelos do Tauape; seu irmão Poti, o inseparável, caminhava a seu lado.

Oito luas havia que ele deixara as praias da Jacarecanga. Depois de vencidos os guaraciabas na baía dos papagaios, o guerreiro cristão quis partir para as margens do Mearim, onde habitava o bárbaro aliado dos tupinambás.

Poti e seus guerreiros o acompanharam. Depois que transpuseram o braço corrente do mar que vem da serra de Tanatinga e banha as várzeas onde se pesca o piau, viram enfim as praias do Mearim, e a velha taba do bárbaro tapuia.

A raça dos cabelos do sol cada vez ganhava mais a amizade dos tupinambás: crescia o número dos guerreiros brancos, que já tinham levantado na ilha a grande itaoca, para despedir o raio.

Quando Martim viu o que desejava, tornou aos campos da Porangaba, que ele agora trilha. Já ouve o ronco do mar nas praias do Mocoribe; já lhe bafeja o rosto o sopro vivo das vagas do oceano.

Quanto mais seu passo o aproxima da cabana, mais lento se torna e pesado. Tem medo de chegar; e sente que sua alma vai sofrer, quando os olhos tristes e magoados da esposa entrarem nela.

Há muito que a palavra desertou seu lábio seco; o amigo respeita este silêncio, que ele bem entende. É o silêncio do rio quando passa nos lugares profundos e sombrios.

Tanto que os dois guerreiros tocaram as margens do rio, ouviram o latir do cão, que os chamava, e o grito da ará, que se lamentava. Estavam mui próximos à cabana, apenas oculta por uma língua de mato. O cristão parou calcando a mão no peito para sofrear o coração, que saltava como o poraquê.

— O latido de Japi é de alegria, disse o chefe.

— Porque chegou; mas a voz da jandaia é de tristeza. Achará o guerreiro ausente a paz no seio da esposa solitária, ou terá a saudade matado em suas entranhas o fruto do amor?

O cristão moveu o passo vacilante. De repente, entre os ramos das árvores, seus olhos viram, sentada à porta da cabana, Iracema com o filho no regaço e o cão a brincar. Seu coração o arrastou de um ímpeto, e toda a alma lhe estalou nos lábios:

— Iracema!...

A triste esposa e mãe soabriu os olhos, ouvindo a voz amada. Com esforço grande, pôde erguer o filho nos braços e apresentá-lo ao pai, que o olhava extático em seu amor.

— Recebe o filho de teu sangue. Chegastes a tempo; meus seios ingratos já não tinham alimento para dar-lhe!

Pousando a criança nos braços paternos, a desventurada mãe desfaleceu como a jetica se lhe arrancam o bulbo. O esposo viu então como a dor tinha murchado seu belo corpo; mas a formosura ainda morava nela, como o perfume na flor caída do manacá.

Iracema não se ergueu mais da rede onde a pousaram os aflitos braços de Martim. O terno esposo, em que o amor renascera com o júbilo paterno, a cercou de carícias que encheram sua alma de alegria, mas não a puderam tornar à vida: o estame de sua flor se rompera.

— Enterra o corpo de tua esposa ao pé do coqueiro que tu amaste. Quando o vento do mar soprar nas folhas, Iracema pensará que é tua voz que fala entre seus cabelos.

O lábio emudeceu para sempre; o último lampejo despediu-se dos olhos baços.

Poti amparou o irmão em sua grande dor. Martim sentiu quanto um amigo verdadeiro é precioso na desventura: é como o outeiro que abriga do vendaval o tronco forte e robusto do ubiratã, quando o broca o cupim.

O camucim recebeu o corpo de Iracema, embebido de resinas odoríferas; e foi enterrado ao pé do coqueiro, à borda do rio. Martim quebrou um ramo de murta, a folha da tristeza, e deitou-o no jazigo de sua esposa.

A jandaia pousada no olho da palmeira repetia tristemente:

— Iracema!

Desde então os guerreiros pitiguaras, que passavam perto da cabana abandonada e ouviam ressoar a voz plangente da ave amiga, se afastavam, com a alma cheia de tristeza, do coqueiro onde cantava a jandaia.

E foi assim que um dia veio a chamar-se Ceará o rio onde crescia o coqueiro, e os campos onde serpeja o rio.

XXXIII

O cajueiro floresceu quatro vezes depois que Martim partiu das praias do Ceará, levando no frágil barco o filho e o cão fiel. A jandaia não quis deixar a terra onde repousava sua amiga e senhora.

O primeiro cearense, ainda no berço, emigrava da terra da pátria. Havia aí a predestinação de uma raça?

Poti com seus guerreiros esperava na margem do rio. O cristão lhe prometera voltar. Todas as manhãs subia ao morro das areias e volvia os olhos ao mar a ver se branqueava ao longe a vela amiga.

Afinal volta Martim de novo às terras, que foram de sua felicidade, e são agora de amarga saudade. Quando seu pé sentiu o calor das brancas areias, derramou-se por todo seu ser um fogo ardente, que lhe requeimou o coração: era o fogo das recordações acesas.

A chama só aplacou quando ele tocou a terra onde dormia sua esposa; porque nesse instante seu coração transudou, como o tronco do jataí nos ardentes calores, e refrescou sua pena de lágrimas abundantes.

Muitos guerreiros de sua raça acompanharam o chefe branco, para fundar com ele a mairi dos cristãos. Veio também um sacerdote de sua religião, de negras vestes, para plantar a cruz na terra selvagem.

Poti foi o primeiro que ajoelhou aos pés do sagrado lenho; não sofria ele que nada mais o separasse de seu irmão branco; por isso quis tivessem ambos um só deus, como tinham um só coração.

Ele recebeu com o batismo o nome do santo, cujo era o dia; e o do rei, a quem ia servir, e sobre os dois o seu, na língua dos novos irmãos. Sua fama cresceu, e ainda hoje é o orgulho da terra, onde ele viu a luz primeiro.

A mairi que Martim erguera à margem do rio, nas praias do Ceará, medrou. A palavra do Deus verdadeiro germinou na terra selvagem; e o bronze sagrado ressoou nos vales onde rugia o maracá.

Jacaúna veio habitar nos campos da Porangaba para estar perto de seu amigo branco; Camarão assentou a taba de seus guerreiros nas margens da Mocejana.

Tempo depois, quando veio Albuquerque, o grande chefe dos guerreiros brancos, Martim e Camarão partiram para as margens do Mearim a castigar o feroz tupinambá e expulsar o branco tapuia.

Era sempre com emoção que o esposo de Iracema revia as plagas onde fora tão feliz, e as verdes folhas a cuja sombra dormia a formosa tabajara.

Muitas vezes ia sentar-se naquelas doces areias, para cismar e acalentar no peito a agra saudade.

As jandaias cantavam ainda no olho do coqueiro; mas não repetiam já o mavioso nome de Iracema.

Tudo passa sobre a terra.


Estamos chegando ao final da obra. Vamos comentar sobre nossa protagonista. O que acontece com Iracema e em que situação? Qual a importância do coqueiro e do pássaro? Dentro da história traçada por José de Alencar, qual a importância, o que significa essa cena final? E no capítulo XXXIII temos o destino de Poti: comente brevemente sobre o que aconteceu com o melhor amigo de Martin?

10 comentários:

  1. Iracema morre em uma situação de fraqueza. Antes dela morrer entregou seu filho ao seu marido Martim. O coqueiro e o pássaro são importantes porque eles enterraram Iracema próximo ao coqueiro que amava pois assim, quando o vento soprasse, ela poderia pensar que é o sussurro do amado ao seu ouvido. Poti, melhor amigo de Martim voltou para o Brasil e foi o primeiro índio a ser catequizado naquela região por não querer que a diferença de crença o separasse novamente do irmão.

    ResponderExcluir
  2. Iracema, já fraca, pela ida do esposo que demorava a votar, o esperava já sem forças, quando o mesmo chega da guerra junto com Poti, a índia ergue o filho e o apresenta, agora pai, Martin sente aflorar o seu amor novamente por Iracema, graças ao filho que tiveram juntos, porém a mesma já não vive mais. Martin enterra sua amada esposa em baixo do coqueiro que ela gostava, assim como pediu segundos antes de sua morte. O local onde foi enterrada Iracema veio a se chamar Ceará, e a jandaia, sua velha companheira e amiga, fica em cima do coqueiro falando tristemente seu nome, “Iracema...”
    Martin volta de sua viagem juntamente com seu filho, um padre e alguns guerreiros brancos. Poti, seu grande amigo, se converte cristão, como já tinham um só coração, agora teriam também um só Deus, seu nome é a junção do nome do santo do dia, do Rei da época e de seu nome traduzido na linguem de Martin, Antônio Felipe Camarão.

    ResponderExcluir
  3. Iracema, já fraca, pela ida do esposo que demorava a votar, o esperava já sem forças, quando o mesmo chega da guerra junto com Poti, a índia ergue o filho e o apresenta, agora pai, Martin sente aflorar o seu amor novamente por Iracema, graças ao filho que tiveram juntos, porém a mesma já não vive mais. Martin enterra sua amada esposa em baixo do coqueiro que ela gostava, assim como pediu segundos antes de sua morte. O local onde foi enterrada Iracema veio a se chamar Ceará, e a jandaia, sua velha companheira e amiga, fica em cima do coqueiro falando tristemente seu nome, “Iracema...”
    Martin volta de sua viagem juntamente com seu filho, um padre e alguns guerreiros brancos. Poti, seu grande amigo, se converte cristão, como já tinham um só coração, agora teriam também um só Deus, seu nome é a junção do nome do santo do dia, do Rei da época e de seu nome traduzido na linguem de Martin, Antônio Felipe Camarão.

    ResponderExcluir
  4. Martim e Poti retornam vencedores de mais uma batalha, todavia, Martim teme se aproximar da sua cabana, sente que sua alma vai sofrer. Caminha vacilante até encontrar Iracema com o filho no colo. “A triste esposa e mãe soabriu os olhos, ouvindo a voz amada”, “Pousando a criança nos braços paternos, a desventurada mãe desfaleceu” “O terno esposos, em que o amor renascera com o júbilo paterno, a cercou de carícias que encheram sua alma de alegria, mas não puderam tornar à vida”. Martim enterra a esposa ao pé do coqueiro que amava, “ e foi assim que um dia veio a chamar-se Ceará o rio onde crescia o coqueiro, e os campos onde serpeja o rio”.
    Gustavo.

    ResponderExcluir
  5. Iracema estava sentada com seu filho no colo assim que o fiel cão de Martim, Japi, corre para a cabana anunciando a aproximação do dono. Ela tenta se levantar para recepcionar o amado, mas os seus membros já estão muito cansados e ela cai desacordada ao chão.Japi volta correndo ao dono latindo incessantemente enquanto a ará, amiga da índia, canta tristemente.Havia oito dias que a nação pitiguara prevalecera novamente na batalha contra os tupinambás, que estavam cada vez mais unidos aos guerreiros dos cabelos do sol.
    Quando o cão se aproximou do dono e Poti, eles apertaram o passo de preocupação. Ao chegar, se deparam com a filha de Araquém sentada ao chão desacordada, com o filho no colo. Seu esposo chamou por seu nome, então ela acordou e lhe entregou o filho, pedindo para recebê-lo com muito amor, explicando que seus seios já não o alimentavam mais. Logo após, a índia morreu.Poti ajudou Coatiabo a superar a terrível perda e ambos a enterraram próximo ao coqueiro que amava pois assim, quando o vento soprasse, ela poderia pensar que é o sussurro do amado ao seu ouvido.Após quatro anos da partida de Martim, da criança e do cão à terra natal do guerreiro, eles voltaram ao Brasil para colonizar e catequizar a terra.Durante esse tempo Poti levantou a taba de seus guerreiros na margem do rio em que moraram, esperando que o irmão voltasse. O grande Poti foi o primeiro índio a ser catequizado naquela região por não querer que a diferença de crença o separasse novamente do irmão. Depois toda a terra se curvou à palavra do “Deus verdadeiro”.Martim sentiu seu coração arder da mesma maneira que da primeira vez quando pisou a areia, pois várias lembranças lhe vieram à mente. Ele foi visitar a terra em que enterrou a amada e lamentou a perda da pessoa mais bondosa e carinhosa que já conhecera. O seu jeito de apreciar as coisas belas ajudou a superação de Martim. A sua grande amiga ará, que estava em cima do coqueiro parou de cantar seu belo nome.
    “Tudo passa sobre a terra”.(Lídia)

    ResponderExcluir
  6. Martim decide então construir uma cabana na praia cearense onde passa a viver com Iracema. Pouco tempo depois, ela engravida e esse filho é mais uma amarra para Martim, que sonha com sua terra natal mas não tem coragem de abandonar a mulher e o filho, da mesma forma que não pode leva-los para a Europa.

    Começa então o martírio de Iracema. Longe da família e dos amigos, ela passa muito tempo sozinha, enquanto Martim faz suas expedições fiscalizando toda a costa. Quando ele está com ela, uma nuvem de tristeza cobre seu rosto enquanto seus olhos buscam Portugal na linha do horizonte. Ela sente-se culpada pela tristeza do amado e conclui que a sua morte é a única forma de libertá-lo. Começa então a definhar de tristeza e solidão. Quando o filho nasce, ela o chama de Moacir, que significa “filho da dor”, e morre.

    Martim a enterra na sombra de uma palmeira, pega o filho, primeiro representante de uma nova raça, e parte para Portugal. Alguns anos mais tarde ele volta liderando um grupo de colonos. No lugar onde ele vivera o seu amor com a moça, ele funda a primeira cidade do Ceará.
    (Débora)

    ResponderExcluir
  7. Martim decide então construir uma cabana na praia cearense onde passa a viver com Iracema. Pouco tempo depois, ela engravida e esse filho é mais uma amarra para Martim, que sonha com sua terra natal mas não tem coragem de abandonar a mulher e o filho, da mesma forma que não pode leva-los para a Europa.

    Começa então o martírio de Iracema. Longe da família e dos amigos, ela passa muito tempo sozinha, enquanto Martim faz suas expedições fiscalizando toda a costa. Quando ele está com ela, uma nuvem de tristeza cobre seu rosto enquanto seus olhos buscam Portugal na linha do horizonte. Ela sente-se culpada pela tristeza do amado e conclui que a sua morte é a única forma de libertá-lo. Começa então a definhar de tristeza e solidão. Quando o filho nasce, ela o chama de Moacir, que significa “filho da dor”, e morre.

    Martim a enterra na sombra de uma palmeira, pega o filho, primeiro representante de uma nova raça, e parte para Portugal. Alguns anos mais tarde ele volta liderando um grupo de colonos. No lugar onde ele vivera o seu amor com a moça, ele funda a primeira cidade do Ceará.
    (Débora)

    ResponderExcluir
  8. Iracema, já fraca, pela ida do esposo que demorava a voltar, o esperava já sem forças, quando o mesmo chega da guerra junto com Poti, a índia ergue o filho que tiverem juntos, porém a mesma já não vive mais. Martim enterra sua amada esposa em baixo do coqueiro que ele gostava, assim como a mesna o pediu segundos antes de sua morte. O local onde foi enterrada Iracema veio a se chamar Ceará, e a jandaia, sua velha companheira e miga fica em cima do coqueiro falando tristemente seu nome, "Iracema"
    Martim volta de sua viagem juntamente com seu filho, um padre e alguns guerreiros brancos. Poti seu grande amigo, se converte cristão, como já tinham um só coração, agora teriam também um só Deus, seu nome é junção do nome do santo do dia, do Rei da época e de seu nome traduzido na linguagem Martim, Antônio Felipe Camarão.

    ResponderExcluir
  9. Iracema, já fraca, pela ida do esposo que demorava a voltar, o esperava já sem forças, quando o mesmo chega da guerra junto com Poti, a índia ergue o filho que tiverem juntos, porém a mesma já não vive mais. Martim enterra sua amada esposa em baixo do coqueiro que ele gostava, assim como a mesna o pediu segundos antes de sua morte. O local onde foi enterrada Iracema veio a se chamar Ceará, e a jandaia, sua velha companheira e miga fica em cima do coqueiro falando tristemente seu nome, "Iracema"
    Martim volta de sua viagem juntamente com seu filho, um padre e alguns guerreiros brancos. Poti seu grande amigo, se converte cristão, como já tinham um só coração, agora teriam também um só Deus, seu nome é junção do nome do santo do dia, do Rei da época e de seu nome traduzido na linguagem Martim, Antônio Felipe Camarão.

    ResponderExcluir
  10. Iracema morre infelizmente deixando o filho Moacir, o coqueiro tem grande importância para os tabajaras e foi próximo a ele que enterraram o corpo de Iracema, Poti se converte Cristão.
    -Lívia Ribeiro

    ResponderExcluir