Nasceu o dia e expirou.
Já brilha na
cabana de Araquém o fogo, companheiro da noite. Correm lentas e silenciosas no
azul do céu, as estrelas, filhas da Lua, que esperam a volta de sua mãe
ausente.
Martim se embala
docemente; e como a alva rede que vai e vem, sua vontade oscila de um a outro
pensamento. Lá o espera a virgem loura dos castos afetos; aqui lhe sorri a
virgem morena dos ardentes amores.
Iracema recosta-se
langue ao punho da rede; seus olhos negros e fúlgidos, ternos olhos de sabiá,
buscam o estrangeiro, e lhe entram n’alma. O cristão sorri; a virgem palpita;
como o saí, fascinado pela serpente, vai declinando o lascivo talhe, que se
prostra sobre o peito do guerreiro.
Já o estrangeiro a
preme ao seio; e o lábio ávido busca o lábio que o espera, para celebrar nesse
ádito d’alma, o himeneu do amor.
No recanto escuro
o velho pajé, imerso em sua contemplação e alheio às cousas deste mundo, soltou
um gemido doloroso. Pressentira o coração o que não viram os olhos? Ou foi
algum funesto presságio para a raça de seus filhos, que assim ecoou n’alma de
Araquém?
Ninguém o soube.
O cristão repeliu
do seio a virgem indiana. Ele não deixará o rastro da desgraça na cabana
hospedeira. Cerra os olhos para não ver; e enche sua alma com o nome e a
veneração do seu Deus:
— Cristo!...
Cristo!...
A serenidade volta
ao seio do guerreiro branco, mas todas as vezes que seu olhar pousa sobre a
virgem tabajara, ele sente correr-lhe pelas veias uma centelha de ardente
chama. Assim, quando a criança imprudente revolve o brasido de intenso fogo,
saltam as faúlhas inflamadas que lhe queimam o corpo.
Fecha os olhos o
cristão, mas na sombra de seu pensamento surge a imagem da virgem, talvez mais
bela. Embalde chama ele o sono às pálpebras fatigadas; elas se abrem, malgrado
seu.
Desce-lhe do céu
ao atribulado pensamento uma inspiração:
— Virgem formosa
do sertão, esta é a última noite que teu hóspede dorme na cabana de Araquém,
onde nunca viera, para teu bem e seu. Faze que seu sono seja alegre e feliz.
— Manda; Iracema
te obedece. Que pode ela para tua alegria?
O cristão falou
submisso, para que não o ouvisse o velho pajé:
— A virgem de Tupã
guarda os sonhos da jurema que são doces e saborosos!
Um triste sorriso
pungiu os lábios de Iracema:
— O estrangeiro
vai viver para sempre à cintura da virgem branca; nunca mais seus olhos verão a
filha de Araquém; e ele quer que o sono já feche suas pálpebras, e o sonho o
leve à terra de seus irmãos!
— O sono é o
descanso do guerreiro, disse Martim; e o sonho a alegria d’alma. O estrangeiro
não quer levar consigo a tristeza da terra hospedeira, nem deixá-la no coração
de Iracema!
A virgem ficou
imóvel.
— Vai, e torna com
o vinho de Tupã.
Quando Iracema foi
de volta, já o pajé não estava na cabana; tirou a virgem do seio o vaso que ali
trazia oculto sob a carioba de algodão entretecida de penas. Martim lho
arrebatou das mãos, e libou as poucas gotas do verde e amargo licor. Não tardou
que a rede recebesse seu corpo desfalecido.
Agora podia viver
com Iracema, e colher em seus lábios o beijo, que ali viçava entre sorrisos,
como o fruto na corola da flor. Podia amá-la, e sugar desse amor o mel e o
perfume, sem deixar veneno no seio da virgem.
O gozo era vida,
pois o sentia mais vivo e intenso; o mal era sonho e ilusão, que da virgem ele
não possuía mais que a imagem.
Iracema se
afastara opressa e suspirosa.
Abriram-se os
braços do guerreiro e seus lábios; o nome da virgem ressoou docemente.
A juruti, que
divaga pela floresta, ouve o terno arrulho do companheiro; bate as asas, e voa
para conchegar-se ao tépido ninho. Assim a virgem do sertão, aninhou-se nos
braços do guerreiro.
Quando veio a
manhã, ainda achou Iracema ali debruçada, qual borboleta que dormiu no seio do
formoso cacto. Em seu lindo semblante acendia o pejo vivos rubores; e como
entre os arrebóis da manhã cintila o primeiro raio do Sol, em suas faces
incendidas rutilava o primeiro sorriso da esposa, aurora de fruído amor. Martim
vendo a virgem unida ao seu coração, cuidou que o sonho continuava; cerrou os
olhos para torná-los a abrir.
A pocema dos
guerreiros, troando pelo vale, o arrancou ao doce engano: sentiu que já não
sonhava, mas vivia. Sua mão cruel abafou nos lábios da virgem o beijo que ali
se espanejava.
— Os beijos de
Iracema são doces no sonho; o guerreiro branco encheu deles sua alma. Na vida,
os lábios da virgem de Tupã, amargam e doem como o espinho da jurema.
A filha de Araquém
escondeu no coração a sua alegria. Ficou tímida e inquieta, como a ave que
pressente a borrasca no horizonte. Afastou-se rápida, e partiu.
As águas do rio
depuraram o corpo casto da recente esposa.
A jandaia não
tornou à cabana.
Tupã já não tinha
sua virgem na terra dos tabajaras.
Faça um síntese das ações contidas nesse capítulo
Oi pessoal!
ResponderExcluirO cauim é uma bebida alcoólica fabricada pelos índios. Desde a época pré-colombiana já havia registros dessa bebida. É fabricado com base na fermentação a mandioca ou do milho. Poderia ser misturado com suco de frutas. Um dado interessante no processo de fabricação é o seguinte: a mandioca é cozida, mastigada e recozida. Dizem que as enzimas da saliva ajudam na fermentação. O saquê no Japão também utiliza o mesmo princípio.
Bem, é isso!
Bom fim de semana a todos!