quarta-feira, 21 de novembro de 2018

Capítulos XXVII, XXVIII e XXIX




XXVII

Uma tarde Iracema viu de longe dois guerreiros que avançavam pelas praias do mar. Seu coração palpitou mais apressado.

Instante depois ela esquecia nos braços do esposo tantos dias de saudade e abandono, que passara na solitária cabana.

Martim e seu irmão haviam chegado à taba de Jacaúna, quando soava a inúbia; eles guiaram ao combate os mil arcos de Poti. Ainda dessa vez os tabajaras, apesar da aliança dos brancos tapuias do Mearim, foram levados de vencida pelos valentes pitiguaras.

Nunca tão disputada vitória e tão renhida pugna se pelejou nos campos que regam o Acaraú e o Camucim; o valor era igual de parte a parte, e nenhum dos dois povos fora vencido, se o deus da guerra não tivesse decidido dar estas plagas à raça do guerreiro branco, aliada dos pitiguaras.

Logo após a vitória o cristão tornara às praias do mar, onde construíra sua cabana. De novo sentiu em sua alma a sede do amor; e tremia de pensar que Iracema houvesse partido, deixando ermo aquele sítio tão povoado outrora pela felicidade.

Como a seca várzea, com a vinda do nevoeiro, reverdece e matiza-se de flores, a formosa filha do sertão com a volta do esposo reanimou-se; e sua beleza esmaltou-se de meigos e ternos sorrisos.

Outra vez sua graça encheu os olhos do cristão; a alegria voltou a habitar em sua alma.

O cristão amou outra vez a filha do sertão, como da primeira vez, quando parece que o tempo não poderá exaurir o coração. Mas breves sóis bastaram para murchar aquelas flores de um coração exilado da pátria.

O imbu, filho da serra, se nasceu na várzea porque o vento ou as aves trouxeram a semente, vingou, achando boa terra e fresca sombra; talvez um dia copou a verde folhagem e enflorou. Mas basta um sopro do mar, para tudo murchar. As folhas lastram o chão; as flores, leva-as a brisa.

Como o imbu na várzea era o coração do guerreiro branco na terra selvagem. A amizade e o amor o acompanharam e sustiveram algum tempo; mas agora longe de sua casa e de seus irmãos, sentiu-se em um ermo. O amigo e a esposa não chegavam mais à sua existência, cheia de grandes e nobres ambições.

Passava os já tão breves, agora longos sóis, na praia, ouvindo gemer o vento e soluçar as ondas. Os olhos, engolfados na imensidade do horizonte, buscavam, mas embalde, discenir do azul diáfano a alvura de uma vela perdida nos mares.

À distância curta da cabana, se elevava à borda do oceano um alto morro de areia; pela semelhança com a cabeça do crocodilo o chamavam os pescadores Jacarecanga. Do seio das brancas areias escaldadas pelo ardente sol, manava uma água fresca e pura; assim destila a dor lágrimas doces de alívio e consolo.

A esse monte subia o cristão; e lá ficava cismando em seu destino. Às vezes lhe vem à mente a idéia de tornar à sua terra e aos seus; mas ele sabe que Iracema o acompanhará; e essa lembrança lhe remorde o coração. Cada passo mais que afaste dos campos nativos a filha dos tabajaras, agora que não tem o ninho de seu coração para abrigar-se, é uma porção da vida que lhe rouba.

Poti conhece que Martim deseja estar só, e afasta-se discreto. O guerreiro sabe o que aflige a alma do seu irmão; e tudo espera do tempo, porque só o tempo endurece o coração do guerreiro, como o cerne do jacarandá.

Iracema também foge dos olhos do esposo, porque já percebeu que esses olhos tão amados se turbam com a vista dela, e em vez de se encherem de sua beleza como outrora, a despedem de si. Mas os olhos dela não se cansam de acompanhar à parte e de longe o guerreiro senhor, que os fez cativos.

Ai dela!... Sentiu já o golpe no coração e como a copaíba ferida no âmago, destila lágrimas em fio.

XXVIII

Uma vez o cristão ouviu dentro em sua alma o soluço de Iracema: seus olhos buscaram em torno e não a viram.

A filha de Araquém estava além, entre as verdes moitas de ubaia, sentada na relva. O pranto desfiava de seu belo semblante; e as gotas que rolavam a uma e uma caíam sobre o regaço, onde já palpitava e crescia o filho do amor. Assim caem as folhas da árvore viçosa antes que amadureça o fruto.

— O que espreme as lágrimas do coração de Iracema?

— Chora o cajueiro quando fica tronco seco e triste. Iracema perdeu sua felicidade, depois que te separaste dela.

— Não estou eu junto a ti?

— Teu corpo está aqui; mas tua alma voa à terra de teus pais, e busca a virgem branca, que te espera.
Martim doeu-se. Os grandes olhos negros que a indiana pousara nele o tinham ferido no âmago.

— O guerreiro branco é teu esposo: ele te pertence.

A formosa tabajara sorriu em sua tristeza:

— Quanto tempo há que retiraste de Iracema teu espírito? Antes teu passo te guiava para as frescas serras e os alegres tabuleiros; teu pé gostava de pisar a terra da felicidade e seguir o rastro da esposa. Agora só buscas as praias ardentes, porque o mar que lá murmura vem dos campos em que nasceste; e o morro das areias, porque do alto se avista a igara que passa.

— É a ânsia de combater o tupinambá que volve o passo do guerreiro para as bordas do mar, respondeu o cristão.

Iracema continuou:

— Teu lábio secou para a esposa, como a cana quando ardem os grandes sóis; perde o grato mel e as folhas murchas não podem mais brincar quando passa a brisa. Agora só falas ao vento da praia para que ele leve tua voz à cabana de teus pais.

— A voz do guerreiro branco chama seus irmãos para defender a cabana de Iracema e a terra de seu filho, quando o inimigo vier.

A esposa meneou a cabeça:

— Quando tu passas no tabuleiro, teus olhos fogem do fruto do jenipapo e buscam a flor do espinheiro; a fruta é saborosa, mas tem a cor dos tabajaras; a flor tem a alvura das faces da virgem branca. Se cantam as aves, teu ouvido não gosta já de escutar o canto mavioso da graúna; mas tua alma se abre para o grito do japim, porque ele tem as penas douradas como os cabelos daquela que tu amas!

— A tristeza escurece a vista de Iracema e amarga seu lábio. Mas a alegria há de voltar à alma da esposa, como volta à árvore a verde rama.

— Quando teu filho deixar o seio de Iracema, ela morrerá, como o abati depois que deu seu fruto. Então o guerreiro branco não terá mais quem o prenda na terra estrangeira.

— Tua voz queima, filha de Araquém, como o sopro que vem dos sertões do Icó, no tempo dos grandes calores. Queres tu abandonar teu esposo?

— Vêem teus olhos lá o formoso jacarandá, que vai subindo às nuvens; a seus pés ainda está a seca raiz da murta frondosa, que todos os invernos se cobria de rama e bagos vermelhos, para abraçar o tronco irmão. Se ela não morresse, o jacarandá não teria sol para crescer àquela altura. Iracema é a folha escura que faz sombra em tua alma; deve cair, para que a alegria alumie teu seio.

O cristão cingiu o talhe da formosa indiana e a estreitou ao peito. Seu lábio levou ao lábio da esposa um beijo, mas áspero e amargo.

XXIX

Poti voltou do banho.

Segue na areia o rastro de Coatiabo, e sobe ao alto da Jacarecanga. Aí encontra o guerreiro em pé no cabeço do monte, com os olhos alongados e os braços estendidos para os largos mares.

Volve o pitiguara as vistas e descobre uma grande igara, que vem sulcando os verdes mares, impelida pelo vento:

— É a grande igara dos irmãos de meu irmão que vem buscá-lo!

O cristão suspirou:

— São os guerreiros brancos inimigos de minha raça, que buscam as praias da valente nação pitiguara, para a guerra da vingança: eles foram derrotados com os tabajaras nas margens do Camucim; agora vêm com seus amigos os tupinambás pelo caminho do mar.

— Meu irmão é um grande chefe. Que pensa ele que deve fazer seu irmão Poti?

— Chama os caçadores de Soipé e os pescadores do Trairi. Nós iremos ao seu encontro.

Poti acordou a voz da inúbia; e os dois guerreiros partiram ambos para o Mocoribe. Pouco além viram os guerreiros de Jaguaraçu e Camoropim que corriam ao grito de guerra. O irmão de Jacaúna os avisou da vinda do inimigo.

O grande maracatim corre nas ondas, ao longo da terra que se dilata até às margens do Parnaíba. A lua começava a crescer quando ele deixou as águas do Mearim; ventos contrários o tinham arrastado para os altos-mares, muito além de seu destino.

Os guerreiros pitiguaras, para não espantar o inimigo, se ocultam entre os cajueiros; e vão seguindo pela praia a grande igara: durante o dia avultam as brancas velas; de noite os fogos atravessam a negrura do mar, como vaga-lumes perdidos na mata.

Muitos sóis caminharam assim. Passam além do Camucim, e afinal pisam as lindas ribeiras da enseada dos papagaios.

Poti manda um guerreiro ao grande Jacaúna e se prepara para o combate. Martim, que subiu ao morro de areia, conhece que o maracatim vem recolher no seio da terra; e avisa seu irmão.

O Sol já nasceu; os guerreiros guaraciabas e os tupinambás, seus amigos, correm sobre as ondas nas ligeiras pirogas e pojam na praia. Formam o grande arco, e avançam como o cardume do peixe quando corta a correnteza do rio.

No centro estão os guerreiros do fogo, que trazem o raio; nas assas os guerreiros do Mearim, que brandem o tacape.

Mas nação alguma jamais vibrou o arco certeiro como a grande nação pitiguara; e Poti é o maior chefe, de quantos chefes empunharam a inúbia guerreira. Ao seu lado caminha o irmão, tão grande chefe como ele, e sabedor das manhas da raça branca dos cabelos do sol.

Durante a noite os pitiguaras fincam na praia a forte caiçara de espinho, e levantam contra ela um muro de areia, onde o raio esfria e se apaga. Aí esperam o inimigo. Martim manda que outros guerreiros subam à copa dos mais altos coqueiros; ali defendidos pelas largas palmas, esperam o momento do combate.

A seta de Poti foi a primeira que partiu, e o chefe dos guaraciabas o primeiro herói que mordeu o pó da terra estrangeira. Rugem os trovões na destra dos guerreiros brancos; mas os raios que desferem mergulham-se na areia, ou se perdem nos ares.

As setas dos pitiguaras já caem do céu, já voam da terra, e se embebem todas no seio do inimigo. Cada guerreiro tomba crivado de muitas flechas, como a presa que as piranhas disputam nas águas do lago.

Os inimigos embarcam outra vez nas pirogas, e voltam ao maracatim em busca dos grandes e pesados trovões, que um homem só nem dois podem manejar.

Quando voltam, o chefe dos pescadores, que corre nas águas do mar como o veloz camoropim, de que tomou o nome, se arroja nas ondas, e mergulha. Ainda a espuma não se apagara, e já a piroga inimiga se afundou, parecendo que a tragara uma baleia.

Veio a noite, que trouxe o repouso.

Ao romper d’alva, o maracatim fugia no horizonte para as margens do Mearim. Jacaúna chegou, não mais para o combate e sim para o festim da vitória.

Nessa hora em que o canto guerreiro dos pitiguaras celebrava a derrota dos guaraciabas, o primeiro filho que o sangue da raça branca gerara nessa terra da liberdade via a luz nos campos da Porangaba.


No capítulo XXVIII, o que acontece de importante? Qual é a atitude de Iracema diante desse fato: o que ela faz? Descreva esse fato. 

13 comentários:

  1. Coatiabo ouve o choro da amada no meio do bosque e vai a seu amparo. Ela lhe acusa de estar distante mentalmente e espiritualmente, embora seu corpo esteja presente.As palavras doeram em Martim, que tentou explicar que só estava a observar o mar devido à luta com seus inimigos. Ela lhe retrucou dizendo que seu lábio secou para o dela, ele não mais acariciava da mesma maneira, nem mesmo a olhava com o mesmo modo. Chegou a dizer que quando o seu filho nascesse, ele poderia partir, pois Iracema morreria por amor e ele não teria mais nada o prendendo à terra. (Lídia)

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  2. Uma vez Martim ouviu Iracema chorar e perguntou-lhe o que a afligia. Iracema responde que perdeu a felicidade, depois que perdeu o seu amado; que Martim não a amava mais e sim, ansiava retornar a sua terra e reencontrar a virgem branca.
    Martim nega. Então Iracema insiste afirmando: “Quando tu passas no tabuleiro, teus olhos fogem do fruto do jenipapo e buscam a flor do espinheiro; a fruta é saborosa, mas tem a cor dos tabajaras; a flor tem a alvura das faces da virgem branca.”
    Iracema diz que quando seu filho nascer, ela morrerá e nada mais o prenderá nessa terra.

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  3. Iracema no capítulo 28 acusa Martim de estar distante mentalmente e espiritualmente dela, mesmo com seu corpo presente junto à ela. Iracema disse que depois que o filho deles nascesse, Martim poderia partir pois ela morreria de amor. (mariana)

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  4. Martin sente saudade da virgem branca que deixara, Iracema percebendo isso chora, o guerreiro nega, diz que não pensa mais na virgem branca, porém ela não acredita, "quando teu filho deixar o seio de Iracema, ela morrerá. Então o guerreiro branco não terá mais quem o prenda na terra estrangeira"

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  5. Iracema estava chorando, Martim não editou e perguntou o que estava acontecendo. Ela responde que não estava feliz após ocorrer a perda de seu amado, infelizmente Martim não a amava mais e sim, ansiava retornar a sua terra e reencontrar a virgem branca.
    Martim nega. Então Iracema insiste afirmando: “Quando tu passas no tabuleiro, teus olhos fogem do fruto do jenipapo e buscam a flor do espinheiro; a fruta é saborosa, mas tem a cor dos tabajaras; a flor tem a alvura das faces da virgem branca.” Iracema infeliz, faz uma previsão de seu futuro dizendo que quando seu filho nascer, ela morrerá e nada mais o prenderá nessa terra. (Débora)

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  6. Iracema estava chorando, Martim não editou e perguntou o que estava acontecendo. Ela responde que não estava feliz após ocorrer a perda de seu amado, infelizmente Martim não a amava mais e sim, ansiava retornar a sua terra e reencontrar a virgem branca.
    Martim nega. Então Iracema insiste afirmando: “Quando tu passas no tabuleiro, teus olhos fogem do fruto do jenipapo e buscam a flor do espinheiro; a fruta é saborosa, mas tem a cor dos tabajaras; a flor tem a alvura das faces da virgem branca.” Iracema infeliz, faz uma previsão de seu futuro dizendo que quando seu filho nascer, ela morrerá e nada mais o prenderá nessa terra. (Débora)

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  7. Uma vez Martim ouviu Iracema chorar e perguntou-lhe o que a afligia. Iracema responde que perdeu a felicidade, depois que perdeu o seu amado; que Martim não a amava mais e sim, ansiava retornar a sua terra e reencontrar a virgem branca.
    Martim nega. Então Iracema insiste afirmando: “Quando tu passas no tabuleiro, teus olhos fogem do fruto do jenipapo e buscam a flor do espinheiro; a fruta é saborosa, mas tem a cor dos tabajaras; a flor tem a alvura das faces da virgem branca.”
    Iracema diz que quando seu filho nascer, ela morrerá e nada mais o prenderá nessa terra.

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  8. Uma vez Martim ouviu Iracema chorar e perguntou-lhe o que a afligia. Iracema responde que perdeu a felicidade, depois que perdeu o seu amado; que Martim não a amava mais e sim, ansiava retornar a sua terra e reencontrar a virgem branca.
    Iracema diz que quando seu filho nascer, ela morrerá e nada mais o prenderá nessa terra.

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  9. Iracema se entristece por Martim ficar indeciso e o acusa de estar distante mental e espiritualmente embora seu corpo esteja presente e ainda retruca dizendo que seu lábio secou para o dela. Disse a Coatiabo que quando seu filho nascesse poderia partir, pois ela morreria de amor e ele não teria mais nada o prendendo à terra.

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  10. Ela percebe que Martim anseia o retorno a sua terra e diz qiq Martim não a ama mais e entae diz que quando seu filho nascer ela irá morrer e nada mais o prenderá a essa terra
    (REGINALDO)

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  11. Uma vez Martim ouviu Iracema chorar e perguntou-lhe o que a afligia. Iracema responde que perdeu a felicidade, depois que perdeu o seu amado; que Martim não a amava mais e sim, ansiava retornar a sua terra e reencontrar a virgem branca.
    Martim nega. Então Iracema insiste afirmando: “Quando tu passas no tabuleiro, teus olhos fogem do fruto do jenipapo e buscam a flor do espinheiro; a fruta é saborosa, mas tem a cor dos tabajaras; a flor tem a alvura das faces da virgem branca.”
    Iracema diz que quando seu filho nascer, ela morrerá e nada mais o prenderá nessa terra.
    Bech

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  12. O ciúmes de Iracema, por pensar que Martim está com a "alma" junto de seus pais à espera da virgem branca.

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  13. Martin escuta o choro de Iracema e a questiona. Iracema o acusa de estar distante mentalmente e espiritualmente, mesmo estando presente fisicamente. Coatiabo nao era mais o mesmo, não a olhava com o mesmo olhar. Ela chegou a dizer que quando seu filho nascesse, ele poderia partir, pois ela morreria por amor e ele não teria mais nada o prendendo à terra. (Amanda)

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