segunda-feira, 12 de novembro de 2018

Capítulos XVI e XVII





XVI

O alvo disco da Lua surgiu no horizonte.

A luz brilhante do Sol empalidece a virgem do céu, como o amor do guerreiro desmaia a face da esposa.

— Jaci!... Mãe nossa!... exclamaram os guerreiros tabajaras.

E brandindo os arcos lançaram ao céu com a chuva das flechas o canto da lua nova:

“Veio no céu a mãe dos guerreiros; já volta o rosto para ver seus filhos. Ela traz as águas, que enchem os rios e a polpa do caju.

“Já veio a esposa do Sol; já sorri as virgens da terra, filhas suas. A doce luz acende o amor no coração dos guerreiros e fecunda o seio da jovem mãe.”

Cai a tarde.

Folgam as mulheres e os meninos na vasta ocara; os mancebos, que ainda não ganharam nome de guerra por algum feito brilhante, discorrem no vale.

Os guerreiros seguem Irapuã ao bosque sagrado, onde os espera o pajé e sua filha para o mistério da jurema. Iracema já acendeu os fogos da alegria. Araquém está imóvel e extático no seio de uma nuvem de fumo.

Cada guerreiro que chega depõe a seus pés uma oferenda a Tupã. Traz um a suculenta caça; outro a farinha d’água; aquele o saboroso piracém da traíra. O velho pajé, para quem são estas dádivas, as recebe com desdém.

Quando foram todos sentados em torno do grande fogo, o ministro de Tupã ordena o silêncio com um gesto, e três vezes clamando o nome terrível, enche-se do deus, que o habita:

— Tupã!... Tupã!... Tupã!...

Três vezes o eco ao longe repercutiu.

Vem Iracema com a igaçaba cheia do verde licor. Araquém decreta os sonhos a cada guerreiro, e distribui o vinho da jurema, que transporta ao céu o valente tabajara.

Este, grande caçador, sonha que os veados e as pacas correm adiante de suas flechas para se traspassarem nelas; fatigado por fim de ferir, cava na terra o bucã, e assa tamanha quantidade de caça que mil guerreiros em um ano não acabaram.

Outro, fogoso em amores, sonha que as mais belas virgens dos tabajaras deixam a cabana de seus pais e o seguem cativas de seu querer. Nunca a rede de chefe algum embalou mais voluptuosas carícias, que ele as frui naquele êxtase.

O herói sonha tremendas lutas e horríveis combates, de que sai vencedor, cheio de glória e fama. O velho renasce na prole numerosa, e como o seco tronco, donde rebenta nova e robusta sebe, cobre-se ainda de flores.

Todos sentem a felicidade tão viva e contínua, que no espaço da noite cuidam viver muitas luas. As bocas murmuram; o gesto fala; e o pajé, que tudo escuta e vê, colhe o segredo das almas desnudas.

Iracema, depois que ofereceu aos guerreiros o licor de Tupã, saiu do bosque. Não permitia o rito que ela assistisse ao sono dos guerreiros e ouvisse falar os sonhos.

Foi dali direito à cabana onde a esperava Martim:

— Toma tuas armas, guerreiro branco. É tempo de partir.

— Leva-me aonde está Poti, meu irmão.

A virgem caminhou para o vale; o cristão a seguiu. Chegaram à falda do rochedo, que ia morrer à beira do tanque, em um maciço de verdura.

— Chama teu irmão!

Martim soltou o grito da gaivota. A pedra que fechava a entrada da gruta caiu; e o vulto do guerreiro Poti apareceu na sombra.

Os dois irmãos encostaram a fronte na fronte e o peito no peito, para exprimir que não tinham ambos mais que uma cabeça e um coração.

— Poti está contente porque vê seu irmão, que o mau espírito da floresta arrebatou de seus olhos.

— Feliz é o guerreiro que tem ao flanco um amigo como o bravo Poti; todos os guerreiros o invejarão.

Iracema suspirou, pensando que a afeição do pitiguara bastava à felicidade do estrangeiro.

— Os guerreiros tabajaras dormem. A filha de Araquém vai guiar os estrangeiros.

A virgem seguiu adiante; os dois guerreiros após. Quando tinham andado o espaço que transpõe a garça de um voo, o chefe pitiguara tornou-se inquieto e murmurou ao ouvido do cristão:

— Manda à filha do pajé que volte à cabana de seu pai. Ela demora a marcha dos guerreiros.

Martim entristeceu; mas a voz da prudência e da amizade penetrou em seu coração. Avançou para Iracema, e tirou do seio uma voz doce para acalentar a saudade da virgem:

— Mais afunda a raiz da planta na terra, mais custa a arrancá-la. Cada passo de Iracema no caminho da partida, é uma raiz que lança no coração de seu hóspede.

— Iracema quer te acompanhar até onde acabam os campos dos tabajaras, para voltar com o sossego em seu peito.

Martim não respondeu. Continuaram a caminhar, e com eles caminhava a noite; as estrelas desmaiaram; e a frescura da alvorada alegrou a floresta. As roupas da manhã, alvas como o algodão, apareceram no céu.

Poti olhou a mata e parou. Martim compreendeu e disse a Iracema:

— Teu hóspede já não pisa os campos dos tabajaras. É o instante de separar-te dele.

XVII

Iracema pousou a mão no peito do guerreiro branco:

— A filha dos tabajaras já deixou os campos de seus pais; agora pode falar.

— Que guardas tu em teu seio, virgem formosa do sertão?

Ela pôs os olhos cheios no cristão:

— Iracema não pode mais separar-se do estrangeiro.

— Assim é preciso, filha de Araquém. Torna à cabana de teu velho pai, que te espera.

— Araquém já não tem filha.

Martim tornou com um gesto rudo e severo:

— Um guerreiro da minha raça jamais deixou a cabana do hóspede viúva de sua alegria. Araquém abraçará sua filha, para não amaldiçoar o estrangeiro ingrato.

A virgem pendeu a fronte; velando-se com as longas tranças negras que se espargiam pelo colo, cruzando ao grêmio os lindos braços, recolheu em seu pudor. Assim o róseo cacto, que já desabrochou em formosa flor, cerra em botão o seio perfumado.

— Tua escrava te acompanhará, guerreiro branco; porque teu sangue dorme em seu seio.

Martim estremeceu.

— Os maus espíritos da noite turbaram o espírito de Iracema.

— O guerreiro branco sonhava, quando Tupã abandonou sua virgem, porque ela traiu o segredo da jurema.

O cristão escondeu as faces à luz.

— Deus!... clamou seu lábio trêmulo.

Permaneceram ambos mudos e quedos.

Afinal disse Poti:

— Os guerreiros tabajaras despertam.

O coração da virgem, como o do estrangeiro, ficou surdo à voz da prudência. O Sol levantou-se no horizonte; e seu olhar majestoso desceu dos montes à floresta. Poti de pé como um tronco decepado esperou que seu irmão quisesse partir.

Foi Iracema quem primeiro falou:

— Vem; enquanto não pisares as praias dos pitiguaras, tua vida corre perigo.

Martim seguiu silencioso a virgem, que fugia entre as árvores como a selvagem cutia. A tristeza lhe roía o coração; mas a onda de perfumes que deixava na brisa a passagem da formosa tabajara açulava o amor no seio do guerreiro. Seu passo era tardo, o peito lhe ofegava.

Poti cismava. Em sua cabeça de mancebo morava o espírito de um abaeté. O chefe pitiguara pensava que o amor é como o cauim, o qual bebido com moderação fortalece o guerreiro, e tomado em excesso abate a coragem do herói. Ele sabia
quanto veloz era o pé do tabajara; e esperava o momento de morrer defendendo o amigo.

Quando as sombras da tarde entristeciam o dia, o cristão parou no meio da mata. Poti acendeu o fogo da hospitalidade. A virgem desdobrou a alva rede de algodão franjada de penas de tucano, e suspendeu-a aos ramos da árvore.

— Esposo de Iracema, tua rede te espera.

A filha de Araquém foi sentar-se longe, na raiz de uma árvore, como a cerva solitária, que o ingrato companheiro afugentou do aprisco. O guerreiro pitiguara desapareceu na espessura da folhagem.

Martim ficou mudo e triste, semelhante ao tronco d’árvore a que o vento arrancou o lindo cipó que o entrelaçava. A brisa, perpassando levou um murmúrio:

— Iracema!

Era o balido do companheiro; a cerva arrufando-se ganhou o doce aprisco.

A floresta destilava suave fragrância e exalava harmoniosos arpejos; os suspiros do coração se difundiram nos murmures do deserto. Foi a festa do amor, e o canto do himeneu.

Já a luz da manhã coou na selva densa. A voz grave e sonora de Poti repercutiu no sussurro da mata:

— O povo tabajara caminha na floresta!

Iracema arrancou-se dos braços que a cingiam e mais do lábio que a tinha cativa: saltando da rede como a rápida zabelê, travou das armas do esposo e levou-o através da mata.

De espaço a espaço, o prudente Poti escutava as entranhas da terra; sua cabeça movia-se pesada de um a outro lado, como a nuvem que se balança no cocuruto do rochedo, aos vários lufos da próxima borrasca.

— O que escuta o ouvido do guerreiro Poti?

— Escuta o passo veloz do povo tabajara. Ele vem como o tapir, rompendo a floresta.

— O guerreiro pitiguara é a ema que voa sobre a terra; nós o seguiremos, como suas asas, disse Iracema.

O chefe sacudiu de novo a fronte:

— Enquanto o guerreiro do mar dormia, o inimigo correu. Os que primeiro partiram já avançam além como as pontas do arco.

A vergonha mordeu o coração de Martim:

— Fuja o chefe Poti e salve Iracema. Só deve morrer o guerreiro mau, que não escutou a voz de seu irmão e o pedido de sua esposa.

Martim arrepiou o passo.

— A alma do guerreiro branco não escutou sua boca. Poti e seu irmão só têm uma vida.

O lábio de Iracema não falou; sorriu.


Nestes capítulos há a descrição de um ritual religioso. Que ritual é esse? Como acontece esse ritual (faça uma descrição usando suas palavras de como é o ritual que foi descrito)


22 comentários:

  1. Ritual sagrado da entrega do vinho dos sonhos aos guerreiros, onde Iracema da o vinho e Araquém um sonho diferente, dependendo da personalidade.
    Iracema não podia ver os sonhos, por isso usou este tempo para guiar Martim ao reencontro com seu irmão Potiguara . (Amanda)

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  2. O ritual é o canto da lua nova consiste na entrega dos bons sonhos . Iracema prepara a igaçaba cheia do verde licor, “Araquém decreta os sonhos a cada guerreiro e distribui o vinho da jurema, que transporta ao céu o valente tabajara.”
    São oferecidas as oferendas a Tupã, enquanto Araquém vela o sonho dos seus guerreiros.
    Iracema afasta-se do bosque sagrado e leva Martim ao encontro com Poti. Ela os guiará até as fronteiras dos campos dos pitiguaras.
    -LÍVIA RIBEIRO

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  3. Ocorre o ritual sagrado que é nada mais nada menos do que a entrega dos bons sonhos aos guerreiros, cujo qual Iracema oferece a eles o vinho de Tupã(licor) e seu pai lhes designa um sonho diferente pada casa um, de acordo com a sua personalidade. Iracema não foi autorizada a ver os sonhos, então ela volta à cabana e guia Martim até seu irmão pitiguara. Durante o reencontro, demonstram alegria e afeto. e juntos seguem viagem. (Lídia)

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  4. Um ritual sagrado: entrega dos sonhos bons aos guerreiros, contudo Iracema lhes oferece o vinho de Tupã e seu pai escolhe como será os sonhos, todos diferentes, dependendo de sua personalidade. Iracema não estava autorizada em ver os sonhos, por isso resolve voltar à cabana, onde guia Martim até seu irmão Potiguara, com muita alegria e afeto seguem juntos a viajem. (Débora)

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  5. Um ritual sagrado: entrega dos sonhos bons aos guerreiros, contudo Iracema lhes oferece o vinho de Tupã e seu pai escolhe como será os sonhos, todos diferentes, dependendo de sua personalidade. Iracema não estava autorizada em ver os sonhos, por isso resolve voltar à cabana, onde guia Martim até seu irmão Potiguara, com muita alegria e afeto seguem juntos a viajem. (Débora)

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  6. Ritual sagrado da entrega dos sonhos e primeiro toma-se vinho depois são designados os sonhos de cada um para ser realizado
    Gustavo

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  7. Festa da lua (Jaci), é um ritual no qual todos oferecem uma oferenda, em volta de uma fogueira, Iracema oferece o vinho de Tupã aos índios e Araquém designa a cada um um sonho diferente.
    (MARIA)

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  8. Ritual da sagrado entrega dos sonhos bons aos guerreiras. Neste ritual Iracema oferece vinho para eles e Tupã designa para cada um deles, um sonho diferente de acordo com suas personalidades.

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  9. O ritual é feito quando a lua das flores nasce, é um período de festa entre os guerreiros tabajaras. Os guerreiros vão para o bosque sagrado, consigo levam oferendas a Tupã, a virgem prepara o Licor da Jurema, que lhe dão os mais belos e felizes sonhos, apenas o pajé não “dorme”, e assim fica observando os guerreiros em seus sonhos no ritual inteiro, enquanto a virgem vai para a cabana, já que não pode saber dos sonhos dos guerreiros.

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  10. Chega a festa da lua, cada guerreiro embevecido sente a felicidade viva em seus sonho. Ocorre o ritual sagrado da entrega dos sonhos bons aos guerreiros, no qual Iracema lhes oferece o vinho de Tupã e seu pai lhes designa cada qual um sonho diferente, dependendo de sua personalidade.

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  11. O ritual é a entrega dos sonhos bons aos guerreiros, no qual Iracema oferece vinho de Tupã no qual seu pai escolhe os sonhos dependendo da personalidade, era feita próximo a fogueira e os indios davam oferendas a tupã(Paulo)

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  12. Ritual sagrado da entrega dos sonhos bons aos guerreiros no qual Iracema lhes oferece o vinho de Tupã e Pajé lhes designa um sonho diferente. No entanto Iracema não é autorizada a ver os sonhos, mas guia Martim até os limites das terras dos tabajaras confessando ao guerreiro que traiu o segredo de Jurema e por isso ela não poderia voltar para sua tribo.

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  13. Ritual religioso em que eles dão oferendas a Tupã

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  14. É clamado 3 vezes o nome de tupã
    Reginaldo

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  15. Cada guerreiro que chega coloca perto de seus pés uma oferenda a Tupã. O velho pajé, recebe as oferendas.
    Quando foram todos sentados em torno do grande fogo, o ministro de Tupã ordena o silêncio com um gesto, e três vezes chama pelo nome Tupã (Henrique)

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  16. Festa da lua ,Cada guerreiro que chega depõe a seus pés uma oferenda a Tupã. Traz um a suculenta caça; outro a farinha d’água; aquele o saboroso piracém da traíra. O velho pajé, para quem são estas dádivas, as recebe com desdém.

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  17. O ritual é feito quando a lua das flores nasce e é um período de festa na tribo, os guerreiros vão para o bosque sagrado levando as oferendas a tupã, a virgem prepara a jurema que dá os mais belos sonhos, apenas o Pagé não dorme e a virgem vai para a cabana porque não é autorizada a saber dos sonhos dos guerreiros.(Heloisa-1ano)

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  18. Um ritual religioso a Tupã. Cada guerreiro q chega põe uma oferenda ao pé de Araquém.

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  19. Um ritual muito sagrado de entrega de bons sonhos aos guerreiros da tribo, que a india Iracema oferece a eles o vinho de Tupã e o pai dela os designa cada um a um sonho diferente.

    - Matheus Ferreira Vazquez

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  20. Ritual para adorar Tupã.Iracema acende fogos da alegria.Os guerreiros dão como oferenda uma suculenta caça,farinha d’água,saboroso piracém da traíra.Todos ficam sentados em volta do fogo e é clamado o nome do Deus.É oferecido aos guerreiros o licor de Tupã.

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