quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Capítulos III e IV




III

O estrangeiro seguiu a virgem através da floresta.

Quando o Sol descambava sobre a crista dos montes, e a rola desatava do fundo da mata os primeiros arrulhos, eles descobriram no vale a grande taba; e mais longe, pendurada no rochedo, à sombra dos altos juazeiros, a cabana do pajé.

O ancião fumava à porta, sentado na esteira de carnaúba, meditando os sagrados ritos de Tupã. O tênue sopro da brisa carmeava, como frocos de algodão, os compridos e raros cabelos brancos. De imóvel que estava, sumia a vida nos olhos cavos e nas rugas profundas.

O pajé lobrigou os dois vultos que avançavam; cuidou ver a sombra de uma árvore solitária que vinha alongando-se pelo vale fora.

Quando os viajantes entraram na densa penumbra do bosque, então seu olhar como o do tigre, afeito às trevas, conheceu Iracema e viu que a seguia um jovem guerreiro, de estranha raça e longes terras.

As tribos tabajaras, d’além Ibiapaba, falavam de uma nova raça de guerreiros, alvos como flores de borrasca, e vindos de remota plaga às margens do Mearim. O ancião pensou que fosse um guerreiro semelhante, aquele que pisava os campos nativos.

Tranqüilo, esperou.

A virgem aponta para o estrangeiro e diz:

— Ele veio, pai.

— Veio bem. É Tupã que traz o hóspede à cabana de Araquém.

Assim dizendo, o pajé passou o cachimbo ao estrangeiro; e entraram ambos na cabana.

O mancebo sentou-se na rede principal, suspensa no centro da habitação.

Iracema acendeu o fogo da hospitalidade; e trouxe o que havia de provisões para satisfazer a fome e a sede: trouxe o resto da caça, a farinha-d’água, os frutos silvestres, os favos de mel e o vinho de caju e ananás.

Depois a virgem entrou com a igaçaba, que enchera na fonte próxima de água fresca para lavar o rosto e as mãos do estrangeiro.

Quando o guerreiro terminou a refeição, o velho pajé apagou o cachimbo e falou:

— Vieste?

— Vim, respondeu o desconhecido.

— Bem vieste. O estrangeiro é senhor na cabana de Araquém. Os tabajaras têm mil guerreiros para defendê-lo, e mulheres sem conta para servi-lo. Dize, e todos te obedecerão.

— Pajé, eu te agradeço o agasalho que me deste. Logo que o Sol nascer, deixarei tua cabana e teus campos aonde vim perdido; mas não devo deixá-los sem dizer-te quem é o guerreiro, que fizeste amigo.

— Foi a Tupã que o pajé serviu: ele te trouxe, ele te levará. Araquém nada fez pelo hóspede; não pergunta donde vem, e quando vai. Se queres dormir, desçam sobre ti os sonhos alegres; se queres falar, teu hóspede escuta.

O estrangeiro disse:

— Sou dos guerreiros brancos, que levantaram a taba nas margens do Jaguaribe, perto do mar, onde habitam os pitiguaras, inimigos de tua nação. Meu nome é Martim, que na tua língua diz como filho de guerreiro; meu sangue, o do grande povo que primeiro viu as terras de tua pátria. Já meus destroçados companheiros voltaram por mar às margens do Paraíba, de onde vieram; e o chefe, desamparado dos seus, atravessa agora os vastos sertões do Apodi. Só eu de tantos fiquei, porque estava entre os pitiguaras de Acaraú, na cabana do bravo Poti, irmão de Jacaúna, que plantou comigo a árvore da amizade. Há três sóis partimos para a caça; e perdido dos meus, vim aos campos dos tabajaras.

— Foi algum mau espírito da floresta que cegou o guerreiro branco no escuro da mata, respondeu o ancião.
A cauã piou, além, na extrema do vale. Caía a noite

IV

O pajé vibrou o maracá, e saiu da cabana, porém o estrangeiro não ficou só.

Iracema voltara com as mulheres chamadas para servir o hóspede de Araquém, e os guerreiros vindos para obedecer-lhe.

— Guerreiro branco, disse a virgem, o prazer embale tua rede durante a noite; e o Sol traga luz a teus olhos, alegria à tua alma.

E assim dizendo, Iracema tinha o lábio trêmulo, e úmida a pálpebra.

— Tu me deixas? perguntou Martim.

— As mais belas mulheres da grande taba contigo ficam.

— Para elas a filha de Araquém não devia ter conduzido o hóspede à cabana do pajé.

— Estrangeiro, Iracema não pode ser tua serva. É ela que guarda o segredo da jurema e o mistério do sonho. Sua mão fabrica para o pajé a bebida de Tupã.

O guerreiro cristão atravessou a cabana e sumiu-se na treva.

A grande taba erguia-se no fundo do vale, iluminada pelos fachos da alegria. Rugia o maracá; ao quebro lento do canto selvagem, batia a dança em trono a rude cadência. O pajé inspirado conduzia o sagrado tripúdio e dizia ao povo crente os segredos de Tupã.

O maior chefe da nação tabajara, Irapuã, descera do alto da serra Ibiapaba, para levar as tribos do sertão contra o inimigo pitiguara. Os guerreiros do vale festejam a vinda do chefe, e o próximo combate.

O mancebo cristão viu longe o clarão da festa, e passou além, e olhou o céu azul sem nuvens. A estrela morta, que então brilhava sobre a cúpula da floresta, guiou seu passo firme para as frescas margens do Acaraú.

Quando ele transmontou o vale e ia penetrar na mata, o vulto de Iracema surgiu. A virgem seguira o estrangeiro como a brisa sutil que resvala sem murmurejar por entre a ramagem.

— Por que, disse ela, o estrangeiro abandona a cabana hospedeira sem levar o presente da volta? Quem fez mal ao guerreiro branco na terra dos tabajaras?

O cristão sentiu quanto era justa a queixa; e achou-se ingrato.

— Ninguém fez mal ao teu hóspede, filha de Araquém. Era o desejo de ver seus amigos que o afastava dos campos dos tabajaras. Não levava o presente da volta; mas leva em sua alma a lembrança de Iracema.

— Se a lembrança de Iracema estivesse n’alma do estrangeiro, ela não o deixaria partir. O vento não leva a areia da várzea, quando a areia bebe a água da chuva.

A virgem suspirou:

— Guerreiro branco, espera que Caubi volte da caça. O irmão de Iracema tem o ouvido sutil que pressente a boicininga entre os rumores da mata; e o olhar do oitibó que vê melhor na treva. Ele te guiará às margens do rio das garças.

— Quanto tempo se passará antes que o irmão de Iracema esteja de volta na cabana de Araquém?

— O Sol, que vai nascer, tornará com o guerreiro Caubi aos campos do Ipu.

— Teu hóspede espera, filha de Araquém; mas se o Sol tornando não trouxer o irmão de Iracema, ele levará o guerreiro branco à taba dos pitiguaras.

Martim voltou à cabana do pajé.

A alva rede que Iracema perfumara com a resina do benjoim guardava-lhe um sono calmo e doce.


O cristão adormeceu ouvindo suspirar, entre os murmúrios da floresta, o canto mavioso da virgem indiana.


Nestes capítulos está presente uma das principais características da cultura indígena. O europeu aproveitou muito disso para dominar os índios. Que característica é essa?E mais: É mencionado que Iracema guardava o segredo da Jurema. O que é a Jurema? Que segredo era esse?

18 comentários:

  1. Pessoal,
    Está muito a participação de vocês. Continuem assim!
    Comentando as respostas de ontem:
    - a visão que José de Alencar faz da índia é idealizada.
    - o conflito da trama se instala quando Iracema encontra Martin e atira uma flecha nele.
    Abraços!

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  2. A característica dos índios é oferecer hospedagem e segredo de Jurema é a bebida de Tupã.

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  3. Características de como os povos indígenas não tinham contato com outros povos, era fácil persuadi-los, além de que eram acostumado com apenas a sua cultura, vítimas fáceis de serem manipuladas.
    Iracema continha o segredo de Juerema, que na verdade era uma espécie de alucinação, na qual somente Iracema seria capaz de preparar uma bebida, aliminada pela Deus Tupã, conduzindo aqueles que ingerirem a um estado de sonho, como refere-se no trecho: “Estrangeiro, Iracema não pode ter tua serva. É ela que guarda o segredo da jurema e o mistério do sonho. Sua mão fabrica para o pajé a bebida de Tupã.” (Débora)

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  4. Iracema abandonou, a família, seu povo, religião, e Deus, por amor a Martin. Olhando por esse ponto de vista, é uma clara referência á submissão do indígena ao colonizador português. A característica refere-se a festa que a tribo fazia quando o chefe voltava, e aos povos de origem indígena, que possuem experiência e vivência apenas com a sua própria cultura e seu próprio costume, sendo assim alvos fáceis para a manipulação Na narrativa de José de Alencar, Iracema é a guardiã do “Segredo da Jurema” que era uma espécie de alucinógeno, que conduz aquele que bebe a um estado de sonho, essa bebia só poderia ser preparada pela virgem Iracema que desgnada pela Deus Tupã era a responsável pela elaboração da bebida (Lídia)

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  5. Acredito que a característica é a bondade de hospitalidade dos indígenas. Jurema é bebida mágica utilizada nos rituais religiosos e o segredo deve que é a sua fórmula. (Mariana)

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  6. O europeu aproveitou das rivalidades entre as tribos nativas da região para conseguir a dominação dos indígenas. Jurema é uma bebida utilizada em rituais religiosos de algumas tribos, e Iracema era a responsável por fabricar e guardar o segredo da produção dessa bebida.(Heloisa-1ano)

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  7. 1- Por se tratar de uma história que se passa no período da colonização brasileira, a característica marcante seria a miscigenação e formação do povo brasileiro. "As tribos tabajaras, d’além Ibiapaba, falavam de uma nova raça de guerreiros, alvos como flores de borrasca, e vindos de remota plaga às margens do Mearim. O ancião pensou que fosse um guerreiro semelhante, aquele que pisava os campos nativos."
    2- Era uma espécie de vestal(no sentido de ter a sua virgindade consagrada à divindade) por guardar o segredo jurema(bebida mágica utilizada nos rituais religiosos).

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  8. A população indígena miscigenada ,Jurema: era uma bebiba mágica usada nos rituais religiosos, ela escondia o segrego de como era fabricada essa "tal" bebida.

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  9. Comida, festa, dança, caça.
    Jurema: bebida mágica usada nos rituais religiosos.
    O segredo é: uma espécie de alucinógeno que conduz aquele que bebe a um estado de sonho, e apenas Iracema poderia preparar essa bebida.

    Yasmim Caram.

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  10. Iracema deixou para trás tudo que tinha por Martin,relacionando isso aos colonizadores e indigenas percebemos uma semelhança.A caracteristica é a propria inocencia daqueles indios sem conhecimento algum da realidade dos colonizadores assim podiam ser facilmente manipulados.Na obra "Iracema",a própria é guardiã do "Segredo de Jurema"esse segredo era nada mais nada menos que uma bebida de efeito alucinógeno,essa só podia ser preparada pela virgem Iracema sob"ordem" do Deus Tupã.
    _Lívia Ribeiro

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  11. A crença religiosa de que os estrangeiros eram guiados pelo divino.
    O nome da bebida.
    A fórmula para prodizir a bebida de Tupã

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  12. Creio que a caracteristica mostrada no livro é a caça.
    Iracema guardava com sigo um segredo, o segredo de Jurema o segredo de Jurema, uma bebida mágica utilizada nos rituais religiosos dos indios.

    - Matheus Ferreira Vazquez

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  13. Iracema era a guardiã do "Segredo da Jurema", onde era uma bebida que entrava em estado de sonho, somente a virgem de lábios de mel poderia prepará-lo. Durante a colonização, os índios passaram a ter costumes europeus,indicando a submissão dos indígenas aos portugueses. Com o pouco acesso a novas culturas, o índio era facilmente manipulado. (Amanda)

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  14. Aproveitaram da caça, comidas, moradia.
    Jurema é um nome de uma bebida magica.
    O segredo era como era fabricada essa bebida (paulo)

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  15. A característica é que os índios foram bondosos com um desconhecido, isso mostra que futuramente, com os portugueses, foi fácil sua integração com os índios.
    Jurema, bebida mágica preparada por Iracema, que conhecia como prepara-la.

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  16. A característica de hospedagem. Jurema é a bebida de Tupã,o segredo guardado por Iracema.

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