quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Capítulo II




Além, muito além daquela serra, que ainda azula no horizonte, nasceu Iracema.

Iracema, a virgem dos lábios de mel, que tinha os cabelos mais negros que a asa da graúna, e mais longos que seu talhe de palmeira.

O favo da jati não era doce como seu sorriso; nem a baunilha recendia no bosque como seu hálito perfumado.

Mais rápida que a corça selvagem, a morena virgem corria o sertão e as matas do Ipu, onde campeava sua guerreira tribo, da grande nação tabajara. O pé grácil e nu, mal roçando, alisava apenas a verde pelúcia que vestia a terra com as primeiras águas.

Um dia, ao pino do Sol, ela repousava em um claro da floresta. Banhava-lhe o corpo a sombra da oiticica, mais fresca do que o orvalho da noite. Os ramos da acácia silvestre esparziam flores sobre os úmidos cabelos. Escondidos na folhagem os pássaros ameigavam o canto.

Iracema saiu do banho: o aljôfar d’água ainda a roreja, como à doce mangaba que corou em manhã de chuva. Enquanto repousa, empluma das penas do gará as flechas de seu arco, e concerta com o sabiá da mata, pousado no galho próximo, o canto agreste.

A graciosa ará, sua companheira e amiga, brinca junto dela. Às vezes sobe aos ramos da árvore e de lá chama a virgem pelo nome; outras remexe o uru de palha matizada, onde traz a selvagem seus perfumes, os alvos fios do crautá, as agulhas da juçara com que tece a renda, e as tintas de que matiza o algodão.

Rumor suspeito quebra a doce harmonia da sesta. Ergue a virgem os olhos, que o sol não deslumbra; sua vista perturbase.

Diante dela e todo a contemplá-la está um guerreiro estranho, se é guerreiro e não algum mau espírito da floresta. Tem nas faces o branco das areias que bordam o mar; nos olhos o azul triste das águas profundas. Ignotas armas e tecidos ignotos cobrem-lhe o corpo.

Foi rápido, como o olhar, o gesto de Iracema. A flecha embebida no arco partiu. Gotas de sangue borbulham na face do desconhecido.

De primeiro ímpeto, a mão lesta caiu sobre a cruz da espada; mas logo sorriu. O moço guerreiro aprendeu na religião de sua mãe, onde a mulher é símbolo de ternura e amor. Sofreu mais d’alma que da ferida.

O sentimento que ele pôs nos olhos e no rosto, não o sei eu. Porém a virgem lançou de si o arco e a uiraçaba, e correu para o guerreiro, sentida da mágoa que causara.

A mão que rápida ferira, estancou mais rápida e compassiva o sangue que gotejava. Depois Iracema quebrou a flecha homicida: deu a haste ao desconhecido, guardando consigo a ponta farpada.

O guerreiro falou:

— Quebras comigo a flecha da paz?

— Quem te ensinou, guerreiro branco, a linguagem de meus irmãos? Donde vieste a estas matas, que nunca viram outro guerreiro como tu?

— Venho de bem longe, filha das florestas. Venho das terras que teus irmãos já possuíram, e hoje têm os meus.

— Bem-vindo seja o estrangeiro aos campos dos tabajaras, senhores das aldeias, e à cabana de Araquém, pai de Iracema.


Logo no começo deste capítulo, José de Alencar faz uma descrição da protagonista da história. Essa descrição é real ou ele faz uma idealização? Por quê? Ainda neste capítulo acontece a complicação/problema da narrativa. Dessa complicação irá decorrer toda história. Qual é o momento da complicação?

23 comentários:

  1. PESSOAL, NÃO ESQUEÇAM DE COLOCAR O NOME NO COMENTÁRIO (para aqueles que não estão logados no Google). Vejam o significado de "Ceará" nos comentários da postagem do Capítulo I

    ResponderExcluir
  2. Uma Idealização. Porque ele faz comparações com elementos inusitados, como: “que tinha os cabelos mais negros que a asa da graúna.” Momento em que: “Diante dela e todo a contemplá-la está um guerreiro estranho, se é guerreiro e não algum mau espírito da floresta.” (Débora)

    ResponderExcluir
  3. A descrição feita no livro sobre Iracema na minha opinião é uma idealização, pois o autor compara as características físicas de Iracema com outras coisas(mel, asa da graúna, talhe de palmeira) exemplo: “lábios de mel”. O conflito ou problema da narrativa, começa dando-se de uma forma mais “calma”/ “sigilosa” no sétimo parágrafo, e ao de correr do texto esse conflito se intensifica, como por exemplo no nono parágrafo em que é citado a frase: “gotas de sangue borbulham no rosto do desconhecido”

    ResponderExcluir
  4. Real, pela riquesa de detalhes.
    Quando Iracema "atira" a flecha contra o guerreiro branco

    ResponderExcluir
  5. Faz uma idealização, pois compara traços de Iracema com elementos da natureza. A complicação ocorre quando Iracema vê o guerreiro e resolve acertá-lo com uma flecha.

    ResponderExcluir
  6. idealizaçao, pois ele caracteriza a mulher como ideal/perfeita
    o problema da narrativa vem quando um guerreiro estranho chegou no local

    Gabriela

    ResponderExcluir
  7. Real porque ela e comparada com varias coisas e as características é realmente dela. O momento da complicação é quando fala " a flexa embebida do arco partiu.gotas de sangue borbulham na face do desconhecido.

    De primeiro ímpeto, a mão lesta caiu sobre a cruz da espada; mas logo sorriu" (Paulo)

    ResponderExcluir
  8. José de Alencar no livro ele faz uma idealização sobre Iracema, pois como podemos ver nos primeiros trechos ele a descreve de modo heroico sendo isso, uma forma de mostrar as suas virtudes. O momento da complicação foi quando o guerreiro deu uma flechada no desconhecido em frente à Iracema. (Mariana)

    ResponderExcluir
  9. Idealização, porque ele compara os lábios de Iracema com o mel e seu cabelo com a asa da graúna.
    A complicação acontece quando Iracema atira uma flecha em um guerreiro desconhecido.

    ResponderExcluir
  10. José de alencar faz a descrição da protagonista Iracema, descrevendo-a primeiramente como "a virgem dos lábios de mel" e dando em seguida as caracteristicas que a personagem possui mas tambem de um jeito idealizado,dando descrições exageradas de vez em quando.
    A complicação citada pelo professor(voce) é o guerreiro estranho ou tambem chamado de mal espirito da floresta, tambem dando caracteristicas ao próprio.

    - Matheus Ferreira Vazquez

    ResponderExcluir
  11. José de Alencar faz uma descrição idealizada da personagem , relacionando a um conjunto de seres da natureza gerando assim uma diferença presente entre ela e os demais personagens, nos proporcionando melhor compreensão.
    A complicação estaria presente na mudança de narrador.
    _Lívia Ribeiro

    ResponderExcluir
  12. Real, pois Iracema não tinha, realmente, contato com outros caras e era inocente. O momento de complicação é quando o jovem aparece em seu ambiente de vivência e se comunica com ela, provavelmente, o desenrolar de alguns capítulos e da vida da protagonista podem partir desse acontecimento

    ResponderExcluir
  13. É idealizada pessoa planejadora concebedora .A complicação se dá quando:"Foi rápido, como o olhar, o gesto de Iracema. A flecha embebida no arco partiu. Gotas de sangue borbulham na face do desconhecido."

    ResponderExcluir
  14. Faz uma idealização pois está a comparando com outras coisas que a define. Quando ela vê o guerreiro.Gustavo

    ResponderExcluir
  15. Respostas
    1. É um pé gracioso, bonito, sem 'defeitos' (sem calcanhar rachado, por exemplo)

      Excluir
  16. Idealização. Podemos perceber que o autor usa a metáfora para demonstrar as qualidades e características da personagem, como "a virgem dos lábios de mel". A complicação da história se inicia no 9° parágrafo, quando Iracema estava se banhando e aparece um estranho guerreiro ensanguentado. (Amanda)

    ResponderExcluir
  17. Idealizada, por que a beleza de iracema parece ser descrita como algo irreal com uma descrição que enfatiza demais suas características. O momento da complicação se dá quando Iracema encontra o "guerreiro estranho" e após ataca-lo eles parecem ser amigável um com o outro.(Heloisa-1ano)

    ResponderExcluir
  18. Idealização, porque o autor associa as características físicas da personagem à paisagem e aos elementos da natureza.
    No momento em que Iracema repousa, surge rumores e diante dela aparece um guerreiro ou mau espírito da floresta. Sem saber, a Virgem lança uma flecha no guerreiro, em seguida, corre em sua direção para estancar o sangue que gotejava.

    ResponderExcluir
  19. Júlia Valladao deixou um novo comentário sobre a sua postagem "Capítulo II":

    1- O texto trata de uma idealização, pois o autor projeta de modo ideal, ele imagina alguém de maneira perfeita: idealizar um personagem, um modelo.
    2- O momento da complicação se dá quando:"Um guerreiro estranho, se é guerreiro e não algum mau espírito da floresta. Tem nas faces o branco das areias que bordam o mar; nos olhos o azul triste das águas profundas. Ignotas armas e tecidos ignotos cobrem-lhe o corpo".
    "Foi rápido, como o olhar, o gesto de Iracema. A flecha embebida no arco partiu. Gotas de sangue borbulham na face do desconhecido."

    ResponderExcluir
  20. Júlia desculpa. Sem querer excluí sem comentário antes de publicá-lo. Mas consegui resgatar

    ResponderExcluir
  21. Uma idealização pois ele a descreve fazendo uma associação com elementos como:asa da graúna e palmeira.A complicação começa em "Foi rápido, como o olhar, o gesto de Iracema. A flecha embebida no arco partiu. Gotas de sangue borbulham na face do desconhecido."

    ResponderExcluir